Flávio de Carvalho e as ruínas do mundo

Você já parou pra pensar que contemplar as ruínas do passado pode ser tão importante quanto olhar para o presente?

Dando continuidade ao tema de ruínas, hoje trago o assunto por outra perspectiva.

O artista brasileiro Flávio de Carvalho (1899-1973) em seu livro “Os ossos do mundo” dedicou um de seus capítulos para escrever sobre “As ruínas do mundo”.

Ele escreve pensando em museus, galerias, coleções e castelos e diz que esses lugares são coisas interessantes para reviver o sopro das civilizações perdidas e esquecidas e erguer a esperança. Diz que o observador dentro do museu, tem a claridade do homem em voo, pois em poucas horas ele sobrevoa séculos de civilização.

Flávio diz que “destruir o passado é o mesmo que destruir a própria alma do indivíduo.” E diz que a nossa sensibilidade é precisamente os ossos do mundo organizados em coleção.Fala sobre o resíduo, e a ação arqueológica, que explora a compreensão, tenta alcançar as profundezas da espécie e diz que “o resíduo não recebeu o contato de um só homem isolado a um dado momento, mas sim o de uma história”.

Ainda diz que o resíduo apenas parece estático para quem o olha com uma ideia cronológica, pois ele tem  movimento. O resíduo tem uma força e animosidade, por meio dele podemos sentir e compreender mais sobre uma época. E segue defendendo as coleções, dizendo que seu valor é inestimável e mal compreendido, e essa revolta com os ossos do mundo é uma atividade do iconoclasta, daquele que destrói imagens, e que ela não pertence ao período de magia e democracia.

Termina o texto com a frase: “As trevas são sempre niveladoras”

O corpo em ruína

No livro O corpo Impossível de Eliane Robert Moraes, ela faz uma revisão sobre como o corpo vem sendo apresentado desde o Modernismo até à arte contemporânea nas artes visuais e literatura. E relembra sobre a fragmentação do corpo com a experiência do pós-guerra.

2020 parece ser o ano onde certezas, planos e sistemas de crenças estão caminhando em marcha acelerada à ruína.

Já na primeira metade do século XX, o homem viu-se diante das duas grandes Guerras Mundiais e essa experiência, com grande avanço bélico e tecnológico, mudou a forma como o ser humano foi sendo abordado na arte, sendo que as formas humanas foram ficando cada vez mais desconstruídas e fragmentadas.

O cubismo surge como um dos movimentos que mais chamam atenção pelo início da desconstrução da forma.

O homem foi pensado diante da máquina e sua humanidade foi questionada também frente ao animal.

O corpo dilacerado pela experiência da guerra sobrevive como um sintoma na arte contemporânea e muitos artistas encontram-se na esteira da desconstrução do corpo ao trabalhar a decomposição da forma orgânica.

Michael Archer e o que é arte?

Michael Archer em Arte Contemporânea uma história concisa, começa seu livro refletindo sobre como hoje parece não existir nenhum material em particular que seja reconhecido como material de arte, pois na contemporaneidade, além de tinta, metal e pedra, são utilizados ar, luz, som, palavras, pessoas, comidas e tantas outras coisas.


O autor afirma que é preciso abandonar o ponto de vista tradicional para que possamos classificar algo como arte, mas ao mesmo tempo, reflete sobre a dificuldade que existe em classificar atividades mundanas erroneamente.


Michael Archer começa seu livro pela Pop Art de 1960 e chega até a arte produzida na década de 1990. Desde então, tivemos décadas de uma arte que segue preceitos e raízes retratadas no livro.


A imagem é detalhe da obra O jantar, de Judy Chicago, de 1974-79.  

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O historiador da arte Bernard Berenson e a felicidade

Bernard Berenson (1865-1959) foi um historiador da arte que se dedicou aos estudos da arte renascentista italiana.

Ao escrever suas memórias no livro Esboço para um auto-retrato, reflete sobre a memória, sobre como em sua velhice enormes blocos de memória se desprendem e se dissolvem no esquecimento.

Reflete ainda sobre a imortalidade, pois como nela seria possível lembrar de uma vida toda, se nessa mesma vida mortal não lembramos de muita coisa… Berenson afirma que talvez exista uma vida imortal para todos nós, mas que para ele isso é inconcebível, embora veja em crenças de imortalidade algo reconfortante. A menos que, depois dessa vida mortal, viria uma vida em Deus, sem memória, sem individualidade e sem identidade própria.

Diz que para ele isso faz todo sentido, visto que relembra os momentos em que se sentiu mais feliz e eles foram, na sua maior parte, “aqueles em que me perdi de mim quase completamente num instante de harmonia perfeita” p.26.


Lendo Bernard Berenson, Esboço para um auto-retrato, editora Bei Comunicação, 2003.

Imagem e Arte

A historiadora da arte Camille Paglia em Imagens Cintilantes reflete sobre a vertigem de imagens que temos acesso na contemporaneidade.

E diz que uma solução é oferecer aos olhos uma oportunidade de percepção estável por meio da contemplação da arte.


Imagem: Detalhe da obra O mar de gelo, de Caspar Friedrich, do capítulo 15, Ruína Ártica.

O escolhido foi você, Miranda July

Miranda July (1974) é norte americana, é artista visual, atriz, roteirista, diretora, performer, escritora…

Em O escolhido foi você (It chooses you na versão original), ela apresenta uma série de entrevistas e, ao mesmo tempo, relata o seu processo de criação do roteiro do filme O futuro.
Você já parou pra pensar que o próprio processo de criação pode se transformar em outra obra???

No livro, ela liga para anúncios de classificados e vai ver o que as pessoas estão vendendo e entrevista elas sobre sua vida. Tem quem anuncie mala, jaqueta, girinos, cartão de natal, secador de cabelo, ursinhos carinhosos, etc.


Joe é a pessoa que Miranda July visita e que se torna personagem de seu filme depois. Ele vendia cartões de natal feitos a mão, mas durante a visita, a artista descobre outros talentos de seu entrevistado.


Mas minha história favorita é a dos álbuns de fotografia que Pam estava vendendo. Ela vendia esses álbuns com fotos de outras pessoas, outra família, que ela tinha comprado a anos atrás. Os álbuns eram de um casal rico e branco e continha seus momentos felizes e viagens.Pam conta que olhar para os álbuns era inspirador, pois ela não tinha dinheiro para viajar e olhar eles era melhor do que nenhum tipo de férias.

O escolhido foi você é recheado de histórias de desconhecidos, permeado ainda pelos relatos da autora. O livro é biografia e autobiografia. Cada visita, cada casa, uma identidade, várias histórias e percepções.É pra quem gosta de espiar pelo buraco da fechadura.
As obras de Miranda July são sempre meio assim, te levam pra um lugar de estranhamento e te enccantam pelas esquisitices.

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